🌿Serie O Escândalo de um Messias Divino: A Pergunta que Incomoda os Dois Lados.

 

Imagem: A pedra que ambos precisam carregar. (A. D'Almeida 26)

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Oliveira Viva

O Escândalo de um Messias Divino

A Pergunta que Incomoda os Dois Lados 

Alexandre D'Almeida

19 de maio de 2026


🌿 Série: O ESCÂNDALO DE UM MESSIAS DIVINO

A Pergunta que Incomoda os Dois Lados 

Baseado na obra de Brian J. Crawford, "The Scandal of a Divine Messiah: A Response to Maimonidean and Kabbalistic Challenges to the Incarnation"

O Escândalo de um Messias Divino — Post 1 da Série

"O Messias pode ser Deus? Essa pergunta soa como absurda para muitos ouvidos judeus — e, no entanto, as Escrituras Hebraicas podem estar nos surpreendendo."

1. Introdução: A Pergunta que Incomoda os Dois Lados

Há uma pergunta que raramente é feita em voz alta nos diálogos entre judeus e cristãos, mas que pulsa silenciosamente no centro de toda a discussão: como um judeu pode sequer considerar a ideia de que o Messias seja divino?

Para o judaísmo rabínico tradicional, isso soa não apenas estranho, mas profundamente problemático — quase uma contradição nos termos. O Shemá Israel ecoa há mais de três milênios: "Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é UM" (Deuteronômio 6.4). Como conciliar a absoluta unicidade de Deus — o Echad que define a fé judaica — com a ideia de que um homem Yeshua de Nazaré também é Deus?

Foi exatamente esse desafio que Brian J. Crawford, pesquisador ligado à Chosen People Ministries, decidiu enfrentar em sua obra "The Scandal of a Divine Messiah: A Response to Maimonidean and Kabbalistic Challenges to the Incarnation" (Wipf and Stock, 2024). A obra conta com prefácio de Garrett J. DeWeese e já recebeu endossos de grandes nomes como Michael L. Brown ("The Scandal is an invaluable resource for anyone who struggles with the idea of Jesus's deity"), Darrell L. Bock, e Mitch Glaser.

Crawford escreve a partir de sua experiência em Brooklyn, Nova York, dialogando diretamente com judeus ortodoxos nas ruas e nas sinagogas. É dessa vivência prática que nasce a urgência do livro.

2. O Coração da Tese de Crawford

O autor identifica dois grandes desafios dentro da própria tradição judaica que precisam ser enfrentados por quem deseja defender a divindade do Messias:

1. Maimônides (Rambam): O grande filósofo judeu medieval (1135-1204 d.C.), autor do Guia dos Perplexos, sistematizou uma visão de Deus como absolutamente incorpóreo, simples e impassível. Inspirado pela filosofia aristotélica, Maimônides estabeleceu os Treze Princípios da Fé, sendo o terceiro: "Deus é incorpóreo". Para ele, Deus é tão radicalmente "Outro" que qualquer ideia de um Deus que se torna homem é simplesmente impossível — uma contradição lógica.

2. A Cabala Luriânica: O sistema místico desenvolvido por Isaac Luria (Ha'Ari) no século XVI, na cidade de Safed (Tzfat), na Galileia. A Cabala luriânica apresenta um Deus que se "contrai" (tsimtsum) para abrir espaço para a criação, que emana através das sefirot e sofre com a quebra dos vasos (shevirat ha'kelim). Se Deus já faz tudo isso para interagir com a criação, por que precisaria da Encarnação? Para a Cabala, a Encarnação se torna redundante.

Crawford resume sua tese com uma frase que percorre todo o livro:

"If Maimonides made the Incarnation impossible, Kabbalah makes the Incarnation redundant." — Brian J. Crawford, The Scandal of a Divine Messiah

O livro, portanto, é uma jornada do escândalo (skandalon, a "pedra de tropeço") ao shalom — paz. Da dificuldade à compreensão.

3. As Duas Abordagens de Crawford

Para construir seu caso, Crawford utiliza duas abordagens complementares que percorrem toda a obra:

3.1. Abordagem Histórico-Textual

O autor demonstra que ideias proto-trinitárias e "encarnacionais" já existiam no pensamento judaico muito antes de Yeshua e continuaram presentes no judaísmo do Segundo Templo:

  • O Anjo do Senhor (Malach Adonai): Aparece repetidamente no Tanach como uma figura que é distinta de Deus e, ao mesmo tempo, identificada com Ele (Gênesis 16, Êxodo 3, Juízes 6, etc.).
  • A Sabedoria personificada (Chokhmah): Em Provérbios 8, a Sabedoria é apresentada como presente na criação, "regozijando-se diante d'Ele" (v.30), uma figura pré-existente que os primeiros cristãos identificaram com o Logos de João 1.
  • O Filho do Homem em Daniel 7: Recebe domínio, glória e reino eterno — prerrogativas exclusivamente divinas.
  • O Logos de Fílon de Alexandria: O grande filósofo judeu do século I descreveu o Logos como a "imagem de Deus", o "primogênito de Deus", o "sumo sacerdote" celestial — uma ponte entre o Deus transcendente e a criação.
  • O comentário de Rashi: Até mesmo o grande exegeta judeu medieval Rabbi Shlomo Yitzchaki (Rashi), ao comentar certas passagens, reconheceu a existência de "duas autoridades" (shtei rashuyot) em alguns textos bíblicos.

3.2. Abordagem Teológico-Filosófica

Crawford não se limita a mostrar que a Encarnação é possível dentro do pensamento judaico. Ele vai além: analisa criticamente as premissas filosóficas gregas que Maimônides e a Cabala usaram para construir seus sistemas.

  • Maimônides baseou-se na cosmologia aristotélica — que incluía um universo geocêntrico, esferas celestes inteligentes e um "Motor Imóvel". Crawford argumenta que, se essas premissas científicas estão superadas, a força dos argumentos de Maimônides contra a Encarnação é significativamente enfraquecida.
  • A Cabala, por sua vez, foi influenciada pelo neoplatonismo e pelo gnosticismo. O conceito de tsimtsum e as sefirot carregam pressupostos metafísicos que, analisados à luz da ciência e da filosofia modernas, revelam fragilidades.

Nota: Crawford argumenta que as suposições filosóficas gregas subjacentes (cosmologia aristotélica, neoplatonismo) que Maimônides e a Cabala usaram são cientificamente falsas ou filosoficamente falhas.

4. A Voz dos Sábios: O que Dizem os Rabinos?

Para enriquecer nosso diálogo entre judaísmo e cristianismo, vale a pena ouvir algumas vozes judaicas que, de diferentes maneiras, tocaram nessa questão:

Rabbi Yosef Albo (século XV): Em seu Sefer Ha'Ikarim (Livro dos Princípios), reconheceu que há passagens nas Escrituras que sugerem "duas naturezas" em Deus, embora as interpretasse de maneira não-trinitária. Ele escreveu que "o nome de Deus às vezes é usado para um ser que não é o próprio Deus, mas recebe Sua honra e autoridade".

Rabbi Moshe ben Nachman (Nachmânides, Ramban): O grande cabalista e exegeta do século XIII ensinava que o Messias teria um papel único na história, e que sua vinda inauguraria uma nova era de compreensão divina. Em seu comentário sobre Gênesis, Nachmânides escreveu que "o segredo do divino ultrapassa o entendimento humano, e aquilo que parece contraditório pode ser, na verdade, a mais profunda verdade".

Philo de Alexandria (século I): Judeu helenístico, escreveu sobre o Logos como "o segundo Deus" (deuteros theos), uma figura distinta de Deus que atua como mediador entre o Criador e a criação — conceito que ecoa fortemente no prólogo do Evangelho de João.

Rabbi Shneur Zalman de Liadi (século XVIII): Fundador do movimento Chabad, em seu Tanya, ensinou que "Deus preenche todos os mundos e também os rodeia" — uma teologia da imanência divina que, para muitos, abre portas para pensar a presença de Deus dentro da criação de maneira mais pessoal.

5. O Eco Reformado

Do lado cristão, também não faltam vozes que viram na Encarnação não um rompimento com o judaísmo, mas seu cumprimento mais sublime:

João Calvino (1509-1564): O reformador genebrino escreveu em suas Institutas: "Cristo, enquanto Deus manifesto em carne, é o verdadeiro Emanuel — Deus conosco — não um deus distante, mas o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, que veio habitar entre nós."

Hernandes Dias Lopes: Pregador e escritor reformado contemporâneo, afirma: "A Encarnação não é um conceito grego intruso no judaísmo; é a flor mais bela da expectativa messiânica de Israel. O Verbo que se fez carne é o mesmo Verbo que falou pelos profetas."

John Piper: Resume de forma contundente: "Deus não enviou um anjo. Ele veio pessoalmente. A Encarnação é a mais radical demonstração do amor de Deus por Seu povo."

6. A Estrutura da Jornada

O livro de Crawford se divide em três partes, que acompanharemos nesta série:

PARTE I — Preparando o Cenário

  1. Cap. 1: Introdução (este post)
  2. Cap. 2: Em Busca do Deus das Escrituras Hebraicas
  3. Cap. 3: Abordagem Histórico-Textual — Evidências Judaicas Pré-Cristãs

PARTE II — Crítica ao Pensamento Judaico Não-Incarnacional 4. Cap. 4: As Escolas Filosóficas Gregas e o Judaísmo Medieval
5. Cap. 5: Maimônides e a Incorporeidade Divina Absoluta
6. Cap. 6: Avaliação do Sistema Maimonidiano
7. Cap. 7: O Sistema da Cabala Luriânica
8. Cap. 8: Avaliação da Metafísica Cabalística
9. Cap. 9: História, Predecessores e Ciência da Cabala

PARTE III — A Encarnação do Filho de Deus 10. Cap. 10: Fundamentos da Encarnação
11. Cap. 11: Implicações da Encarnação
12. Cap. 12: Do Escândalo ao Shalom

7. Para Refletir

1. O que a expressão skandalon (escândalo, pedra de tropeço) significava no contexto judaico do primeiro século? Em Isaías 8.14, o Senhor é descrito como "pedra de tropeço" para as casas de Israel — será que o conceito de um Deus que age de maneiras inesperadas é tão estranho assim?

2. Rabi Akiva (século II), um dos maiores sábios da Mishná, ensinava que o Messias era tão central que o próprio Deus "sofre com Seu povo no exílio". Se Deus compartilha o sofrimento de Israel, por que seria absurdo pensar que Ele compartilharia também a própria humanidade?

3. O apóstolo Paulo, em Romanos 11, fala de judeus e gentios como ramos de uma mesma oliveira (Elah HaZayit). Será que a crença em Yeshua como divino realmente nos separa, ou pode nos unir em um entendimento mais profundo do Deus de Israel?

No próximo post, mergulharemos no Capítulo 2: "Em Busca do Deus das Escrituras Hebraicas". Até lá, shalom u'vrachá — paz e bênção.

8. Referências

  • CRAWFORD, Brian J. The Scandal of a Divine Messiah: A Response to Maimonidean and Kabbalistic Challenges to the Incarnation. Eugene: Wipf and Stock, 2024.
  • FÍLON DE ALEXANDRIA. Sobre a Criação do Mundo e outras obras, século I.
  • MAIMÔNIDES (Moshe ben Maimon). O Guia dos Perplexos, século XII.
  • LURIA, Isaac (Ha'Ari). Escritos Luriânicos, século XVI.
  • ALBO, Yosef. Sefer Ha'Ikarim (Livro dos Princípios), século XV.
  • CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, 1559.
  • PIPER, John. Deus é o Evangelho, ed. Fiel.
  • LOPES, Hernandes Dias. Cristologia, ed. Hagnos.


Que o Eterno o Abençoe!




Alexandre D'Almeida

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