🌿Serie O Escândalo de um Messias Divino: Em Busca do Deus das Escrituras Hebraicas

 

Imagem: Em busca do Deus da Bíblia (A. D'Almeida 26)

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Oliveira Viva

O ESCÂNDALO DE UM MESSIAS DIVINO

Em Busca do Deus das Escrituras Hebraicas 

Alexandre D'Almeida

20 de maio de 2026


🌿 Série: O ESCÂNDALO DE UM MESSIAS DIVINO — POST 2

Em Busca do Deus das Escrituras Hebraicas

Baseado na obra de Brian J. Crawford, "The Scandal of a Divine Messiah: A Response to Maimonidean and Kabbalistic Challenges to the Incarnation".

1. Introdução: O Deus que se Deixou Ver

Uma das grandes revoluções do pensamento judaico medieval foi a sistematização da doutrina da absoluta incorporeidade de Deus. Para grande parte do judaísmo moderno, é praticamente um axioma: Deus não tem corpo, não tem forma, não pode ser visto. Mas, se essa ideia é tão óbvia e tão central, por que as Escrituras Hebraicas estão repletas de linguagem que sugere o contrário?

O texto bíblico afirma que Deus "desceu" para ver a Torre de Babel (Gênesis 11.5), que Ele "andava" no jardim (Gênesis 3.8) e que Moisés viu as "costas" de Deus (Êxodo 33.23). Profetas como Isaías e Daniel relatam visões do Senhor assentado em um trono ou como o "Ancião de Dias". Este é o ponto de partida do Capítulo 2 de Brian J. Crawford: o que o Tanach realmente ensina sobre a natureza de Deus e como isso prepara o caminho para a ideia de um Messias divino?

2. A Tese do Capítulo 2

Crawford inicia sua análise com uma premissa metodológica rigorosa: a autoridade final reside no texto bíblico, e não em sistemas filosóficos posteriores. Ele argumenta que, antes da influência de Maimônides no século XII, muitos sábios judeus aceitavam que a linguagem corporal aplicada a Deus nas Escrituras não era mera metáfora, mas refletia uma realidade da manifestação divina.

"I begin this book with only the assumption that the Hebrew Scriptures have the highest authority concerning what they teach, reflecting their prophetic status and freedom from error." — Brian J. Crawford

Até mesmo Rashi (Rabbi Shlomo Yitzchaki), o mais respeitado exegeta judeu medieval, mantinha posições que admitiam certa forma de corporeidade divina, demonstrando que a leitura literal das teofanias tinha suporte dentro da tradição antes da hegemonia do pensamento maimonidiano.

3. Antropomorfismos Divinos: Metáfora ou Realidade?

O dilema interpretativo reside em como compreender as referências a "mãos", "olhos" e "coração" de Deus. Crawford identifica três correntes principais:

  1. A Posição Metafórica Pura (Maimônides): Deus é absolutamente incorpóreo; a linguagem é apenas uma acomodação à limitação humana.
  2. A Posição do "Corpo Glorioso": Presente em tradições místicas antigas (Hekalot), sugere uma manifestação visível e real da glória divina (Kavod).
  3. A Posição da Mediação Divina: Deus interage com a criação através de um mediador que é simultaneamente distinto e plenamente divino, como o Anjo do Senhor ou o Logos.

4. As Teofanias do Tanach: Quando o Invisível se Tornou Visível

Crawford analisa momentos cruciais onde o Deus invisível se manifesta de forma tangível aos patriarcas e profetas.

4.1 A Sarça Ardente (Êxodo 3)

Na sarça, o Anjo do Senhor aparece em chamas, mas a voz que emana é a do próprio Deus. Há uma identificação intrínseca entre o enviado e o Enviador, sugerindo uma pluralidade funcional na divindade.

4.2 A Visão de Isaías (Isaías 6)

Isaías vê o Senhor em Seu trono. Crawford destaca que, se Deus fosse absolutamente invisível em todos os sentidos, a experiência de Isaías seria impossível. O Novo Testamento, em João 12.41, identifica esta visão especificamente como a glória de Yeshua.

4.3 A Visão do Ancião de Dias (Daniel 7)

Daniel descreve o Ancião de Dias e o Filho do Homem vindo sobre as nuvens. Esta passagem é central para Crawford, pois apresenta duas figuras divinas onde uma recebe autoridade eterna da outra — uma evidência profética de pluralidade no ser de Deus.

5. O que os Sábios Disseram?

5.1 Rabbi Shlomo Yitzchaki (Rashi)

Rashi reconheceu a existência de "duas autoridades" (shtei rashuyot) em certos textos, mantendo uma leitura que não descartava a ação corporal de Deus na história.

5.2 Rabbi Moshe ben Nachman (Nachmânides/Ramban)

Ensinava que Deus se revela através da "glória criada", uma forma que verdadeiramente representa a essência divina para o homem, permitindo a habitação de Deus entre Seu povo.

5.3 Fílon de Alexandria

O filósofo judeu do primeiro século descreveu o Logos como o "segundo Deus" (deuteros theos) e o mediador necessário entre o Criador e o cosmos, validando a aceitação dessa ideia no judaísmo do Segundo Templo.

6. A Voz Reformada

6.1 João Calvino

Nas Institutas, Calvino afirma que as teofanias do Antigo Testamento eram prelúdios da Encarnação, manifestações do Filho antes de Sua vinda em carne.

6.2 Herman Bavinck

Bavinck argumenta que o Deus de Israel nunca foi um Deus distante, mas Alguém que se aproximava constantemente através de formas como a Shekiná e o Anjo do Senhor.

7. Conclusão: O Deus que se Aproxima

Crawford conclui que o Tanach não apresenta uma teologia que exclui a Encarnação. Pelo contrário, o texto bíblico revela um Deus que se manifesta visivelmente, utiliza mediadores divinos e permite uma linguagem de pluralidade. A rigidez filosófica medieval pode ter obscurecido essa riqueza textual que aponta diretamente para o Messias.

Nota: A transição para a negação absoluta da forma divina foi uma resposta histórica a desafios filosóficos, mas o texto bíblico permanece como testemunha de um Deus que deseja ser visto e conhecido.

8. Para Refletir

  1. Como conciliar a invisibilidade de Deus com as visões proféticas de Isaías e Ezequiel?
  2. Se o Rabbi Akiva admitia que o trono de Deus tinha uma "aparência humana", por que a teologia moderna rejeita essa possibilidade?
  3. A doutrina da Encarnação é uma inovação ou o cumprimento das teofanias do Antigo Testamento?

Referências


CRAWFORD, Brian J. The Scandal of a Divine Messiah. Eugene: Wipf and Stock, 2024.
MAIMÔNIDES. O Guia dos Perplexos, século XII.
ALBO, Yosef. Sefer Ha'Ikarim, século XV.
CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, 1559.
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, 1901.


Que o Eterno o Abençoe!




Alexandre D'Almeida

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