🌿 As Duas Vindas do Messias Segundo o Judaísmo Antigo
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Oliveira Viva
As Duas Vindas do Messias Segundo o Judaísmo Antigo
O Messias humilde e o Messias glorioso no Tanach, na tradição rabínica e na leitura;
Alexandre D'Almeida
9 de julho de 2025
Uma das objeções mais frequentes levantadas por antimissionários e por setores do judaísmo ortodoxo contra a messianidade de Yeshua é a seguinte: se ele é o Messias, por que as grandes promessas messiânicas ainda não se cumpriram plenamente? O mundo continua marcado por guerra, morte, injustiça, idolatria e dispersão. A paz universal não chegou. A ressurreição geral dos mortos não aconteceu. O serviço universal ao Deus de Israel ainda não é uma realidade completa.
A partir disso, conclui-se que Yeshua não pode ser o Messias, porque, se fosse, todas essas promessas teriam se realizado em sua primeira vinda. A resposta messiânica cristã é conhecida: o Messias cumpre suas promessas em etapas. Primeiro vem em humildade, sofrimento e rejeição; depois vem em glória, juízo e reino consumado. Mas a pergunta importante é esta: essa ideia de duas vindas é uma invenção cristã, ou possui alguma raiz no próprio horizonte judaico?
Este estudo propõe que a tensão entre um Messias humilde e um Messias glorioso já está presente no Tanach e foi percebida, em diferentes graus, pela tradição judaica. Isso não significa que o judaísmo rabínico clássico tenha formulado exatamente a doutrina cristã das duas vindas como o Novo Testamento a apresenta. Significa, sim, que a própria tradição judaica reconheceu um problema real: algumas profecias descrevem o Messias em humilhação, outras em exaltação; algumas o mostram próximo, rejeitado e sofredor, outras o apresentam universal, glorioso e triunfante. O desafio sempre foi explicar como essas imagens se harmonizam.
A objeção antimissionária e o centro da questão
Os antimissionários costumam listar profecias messiânicas que, segundo eles, Yeshua não cumpriu:
- a paz universal entre as nações;
- o fim do pecado e do mal;
- o serviço universal ao Eterno;
- a ressurreição dos mortos;
- a reunião plena dos dispersos de Israel;
- a manifestação visível do reino messiânico.
Essas objeções não são superficiais. Elas tocam o coração da esperança profética. De fato, textos como Isaías 2, Isaías 11, Ezequiel 37, Daniel 12 e Zacarias 14 apontam para uma transformação profunda da história. Portanto, a pergunta não deve ser evitada.
A resposta cristã messiânica não é negar essas promessas, mas afirmar que elas pertencem a momentos distintos da obra do Messias. Algumas dizem respeito à sua vinda em humildade, sofrimento e oferta por pecado. Outras dizem respeito ao seu reinado manifesto, à restauração final e ao juízo escatológico. O ponto decisivo é saber se o próprio Tanach permite essa leitura e se a tradição judaica reconheceu essa tensão.
O Tanach apresenta um Messias em dois perfis
Ao ler os textos proféticos, o leitor percebe rapidamente que o Messias aparece em retratos que, à primeira vista, parecem difíceis de conciliar.
Em Zacarias 9:9, lemos:
“Eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador, humilde, montado em jumento.”
Aqui, o Messias é humilde, manso, próximo e despojado de pompa militar. Ele não aparece como conquistador cósmico, mas como rei de mansidão. Já em Daniel 7:13-14, a imagem é muito diferente:
“Eis que vinha com as nuvens do céu um como o filho do homem... e foi-lhe dado domínio, glória e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem.”
Agora o Messias aparece em glória, com domínio universal, investido de majestade escatológica. Em um texto, ele vem montado em jumento. Em outro, vem com as nuvens do céu. Em um, a ênfase está na humildade. No outro, na exaltação. Em um, ele entra em Sião. No outro, recebe domínio sobre todos os povos.
Além disso, há textos como Isaías 53, nos quais a figura messiânica ou servil é rejeitada, desprezada e ferida. E há textos como Salmo 2, Salmo 110, Isaías 11 e Daniel 7, em que o Messias reina, julga e triunfa. O problema hermenêutico não foi criado pelo Cristianismo. Ele já está no texto bíblico.
Como a tradição judaica lidou com essa tensão
A tradição judaica percebeu esse problema e tentou resolvê-lo de diferentes formas. Uma das respostas mais conhecidas está no Talmude, Sanhedrin 98a, que coloca lado a lado Daniel 7:13 e Zacarias 9:9. A pergunta implícita é: afinal, como virá o Messias? Nas nuvens do céu ou montado num jumento?
A solução talmúdica mais famosa é condicional: se Israel for digno, ele virá com as nuvens do céu; se não for digno, virá pobre e montado em jumento. Essa resposta é extremamente importante porque prova duas coisas. Primeiro, os rabinos reconheceram que havia uma tensão real entre os textos. Segundo, eles não trataram essa tensão como irrelevante; tentaram harmonizá-la.
Ao mesmo tempo, essa solução levanta uma dificuldade. Se uma forma de vinda depende da condição moral de Israel, a outra forma parece ficar sem cumprimento. E isso gera uma questão teológica séria, especialmente se lembrarmos a convicção judaica de que a palavra profética é verdadeira. Por isso, muitos leitores messiânicos argumentam que a harmonização mais forte é entender que os dois retratos não são alternativas excludentes, mas momentos distintos da mesma missão messiânica.
Esse ponto precisa ser formulado com cuidado. Não é correto afirmar que o judaísmo rabínico clássico ensinou de forma explícita a doutrina cristã de duas vindas nos termos do Novo Testamento. Mas é correto afirmar que a tradição judaica já percebia a coexistência de dois perfis messiânicos difíceis de reduzir a um único momento simples.
Rashi, Saadia, o Zohar e outros ecos judaicos
Vários intérpretes judaicos ajudam a mostrar como essa tensão foi percebida ao longo da história.
Rashi, ao comentar Zacarias 9:9, identifica a passagem com o Rei Messias, o que mostra que o retrato humilde não era descartado como não messiânico. Em leituras relacionadas a Daniel 7, também reconhece o caráter messiânico da visão do “filho do homem”. Isso já é significativo: o mesmo universo interpretativo aceita tanto a humildade quanto a glória como categorias messiânicas.
Saadia Gaon também trabalha a conexão entre essas passagens e ajuda a mostrar que o Messias pode ser visto em chave humilde e gloriosa. Ainda que sua formulação não seja idêntica à doutrina cristã de duas vindas, ela mostra que a tensão entre essas imagens era real e exigia solução.
O Zohar, em diferentes contextos, também reflete a ideia de que o advento messiânico envolve dimensões progressivas, em que aspectos da redenção se desdobram em momentos distintos. O mesmo pode ser dito de leituras posteriores que associam o Messias à manifestação “no alto e em baixo”, isto é, em esferas tanto terrenas quanto celestes.
Autores como Metzudat David e outros comentaristas judaicos reconhecem em Daniel 7:13 um claro sinal do Rei Messias. Já tradições ligadas ao sofrimento messiânico, como certas leituras de Isaías 53, Sanhedrin 98b, Pesikta Rabbati e até o conceito de Mashiach ben Yosef, mostram que a tradição judaica não desconhece a possibilidade de um Messias que sofre antes do triunfo.
Esse conjunto de fontes não prova, por si só, a cristologia neotestamentária. Mas ele derruba a ideia de que um Messias humilde e um Messias glorioso sejam categorias totalmente incompatíveis dentro do Judaísmo.
O servo sofredor e o rei glorioso
Um dos pontos mais fortes da leitura messiânica cristã é exatamente este: os textos do Tanach parecem apontar para dois grandes movimentos na obra do Messias.
O primeiro movimento é o da humilhação:
- ele vem em mansidão;
- é rejeitado;
- sofre;
- carrega dores;
- oferece redenção;
- é desprezado antes de ser exaltado.
O segundo movimento é o da glória:
- ele vem com autoridade celestial;
- recebe domínio universal;
- julga as nações;
- estabelece paz;
- consuma a esperança profética.
Essa leitura encontra força quando se colocam lado a lado Zacarias 9:9, Isaías 53 e Daniel 7:13-14. Em vez de competir entre si, esses textos passam a ser lidos como partes de uma única narrativa messiânica: primeiro o servo, depois o rei; primeiro o sofrimento, depois a glória; primeiro a rejeição, depois a manifestação universal.
Na tradição cristã reformada, esse padrão é amplamente reconhecido. Calvino, ao comentar Isaías 53, enfatiza que o Messias entra na glória por meio da humilhação. Matthew Henry ressalta que os sofrimentos do Cristo não anulam sua realeza; antes, fazem parte do caminho por meio do qual ela se manifesta. A teologia reformada, assim, não inventa o contraste entre sofrimento e glória; ela o recebe da própria Escritura e o organiza cristologicamente.
A contribuição do conceito de Mashiach ben Yosef
Ainda que não seja a única resposta rabínica ao problema, a figura de Mashiach ben Yosef merece atenção. Em certas correntes do Judaísmo, ela aparece como um messias associado ao sofrimento, à luta e até à morte, distinto de Mashiach ben David, o rei vitorioso e final.
É importante não exagerar esse ponto. Nem todas as tradições judaicas trataram o tema da mesma forma, e seria incorreto dizer que esse conceito equivale simplesmente à doutrina cristã da primeira e segunda vinda. Não equivale. Mas ele é muito relevante porque mostra que o próprio pensamento judaico sentiu a necessidade de explicar por que algumas profecias apontam para sofrimento e outras para triunfo.
Em outras palavras, mesmo quando a tradição judaica não fala em “duas vindas”, ela por vezes fala em duas dimensões messiânicas, ou até em duas figuras associadas ao drama redentivo. Isso reforça a percepção de que a tensão entre servo sofredor e rei glorioso não é um problema inventado pelos cristãos; é um problema textual e teológico real.
Yeshua e a leitura das duas vindas
É nesse cenário que a leitura cristã messiânica afirma que Yeshua cumpre os dois perfis do Messias em momentos distintos de sua missão.
Na primeira vinda, ele veio em humildade, entrou em Jerusalém montado em jumento, foi rejeitado, sofreu e morreu. Essa leitura associa diretamente sua entrada em Jerusalém a Zacarias 9:9 e sua paixão a Isaías 53. Também entende sua obra como abertura do caminho da salvação aos gentios, em harmonia com Isaías 49:6.
Na segunda vinda, segundo o testemunho do Novo Testamento, ele voltará em glória, com poder, juízo e domínio manifesto. É aqui que textos como Daniel 7:13-14 são aplicados ao retorno glorioso do Messias. Passagens como Mateus 26:64, Marcos 13:26 e Apocalipse 1:7 mostram essa conexão com clareza.
Assim, a leitura cristã sustenta que o que parece contradição no Tanach é, na verdade, progressão. O Messias não falhou em cumprir as promessas; ele as cumpre em ordem histórica e escatológica. Primeiro trata do pecado, da redenção e da reconciliação. Depois manifesta publicamente seu reino, juízo e paz universal.
Respondendo aos antimissionários com mais precisão
Diante desse quadro, a resposta aos antimissionários pode ser formulada com firmeza, mas também com precisão acadêmica.
Primeiro, a ideia de duas vindas não surge do nada. Ela é uma forma de resolver uma tensão já presente no Tanach entre um Messias humilde e um Messias glorioso.
Segundo, a tradição judaica reconheceu essa tensão e tentou harmonizá-la. Sanhedrin 98a é prova clara disso. Outros comentaristas e correntes judaicas também preservaram a dupla ênfase entre humilhação e glória.
Terceiro, o conceito de sofrimento messiânico não é estranho ao Judaísmo. Tradições sobre Isaías 53, Sanhedrin 98b, Pesikta Rabbati e Mashiach ben Yosef mostram que a possibilidade de um Messias sofredor estava, ao menos em certas correntes, dentro do horizonte judaico.
Quarto, a leitura cristã de Yeshua como aquele que primeiro sofre e depois reina não deve ser descartada como simples inovação artificial. Ela é, antes, uma leitura que busca integrar de modo coerente os dois grandes perfis messiânicos já presentes na Escritura.
Isso não significa que o Judaísmo rabínico tenha se tornado cristão, nem que todas as fontes judaicas concordem com essa conclusão. Significa apenas que a objeção “o Judaísmo nunca pensou algo assim” não se sustenta com facilidade diante do conjunto das fontes.
Conclusão
O Tanach apresenta o Messias em imagens que, à primeira vista, parecem difíceis de conciliar: ele é humilde e glorioso, rejeitado e exaltado, sofredor e reinante. A tradição judaica reconheceu essa tensão e buscou explicá-la de diferentes formas, seja por leituras condicionais, seja por distinções entre perfis messiânicos, seja por interpretações que distribuem em etapas aquilo que os profetas descrevem de maneira condensada.
A leitura cristã messiânica entende que Yeshua resolve essa tensão não anulando uma das imagens, mas cumprindo ambas em tempos distintos. Na primeira vinda, ele veio como servo sofredor. Na segunda, virá como rei glorioso. Essa leitura não elimina o debate com o Judaísmo rabínico, mas mostra que o conceito de duas etapas da obra messiânica não é tão estranho ao universo judaico quanto se costuma afirmar.
A questão, portanto, não é apenas se o Messias deveria trazer paz universal, ressurreição e reino. A questão é também quando e como essas promessas se cumprem. Se o Tanach já apresenta o Messias em duas tonalidades — humilhação e glória — então a leitura de Yeshua em duas vindas deixa de ser uma fuga interpretativa e passa a ser uma solução teológica séria para uma tensão bíblica real.
Notas
1. Antimissionários
O termo designa, de modo geral, grupos e autores judeus que se opõem à evangelização cristã entre judeus e buscam responder a argumentos cristãos sobre Jesus como Messias.
2. Sobre o uso das fontes rabínicas
Este estudo não afirma que a tradição rabínica formulou exatamente a doutrina cristã das duas vindas. O objetivo é mostrar que a tensão entre um Messias humilde e um Messias glorioso foi percebida e discutida dentro do próprio horizonte judaico.
3. Sobre Maimônides
É melhor evitar afirmar que o “6º princípio da fé” de Maimônides ensina diretamente a solução das duas vindas. O uso mais seguro é dizer que, para Maimônides, a verdade profética deve ser levada a sério, o que torna a harmonização das imagens messiânicas um problema real de interpretação.
Referências
- Tanach: Zacarias 9:9; Daniel 7:13-14; Isaías 53; Isaías 49:6; Salmo 2; Salmo 110; Isaías 11
- Talmude: Sanhedrin 98a; Sanhedrin 98b; Sukkah 52a
- Midrash e tradição judaica: Pesikta Rabbati 36–37; comentários de Rashi; Saadia Gaon; Metzudat David; Zohar
- Tradição reformada: João Calvino, comentário sobre Isaías 53 e os Evangelhos; Matthew Henry, comentários messiânicos sobre os profetas e o Novo Testamento
Resumindo
- O Tanach apresenta o Messias em dois perfis principais: humilde/sofredor e glorioso/reinante.
- A tradição judaica reconheceu essa tensão e buscou formas de harmonizá-la.
- A leitura cristã messiânica entende que Yeshua cumpre esses dois perfis em duas etapas da sua missão.
- Essa ideia pode ser debatida, mas não pode ser descartada como totalmente sem raízes judaicas.
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