🌿Série Descobrindo os Pilares da Fé Hebraica - A Pessoa de Deus: O Chamado à Intimidade com o Eterno

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Oliveira Viva

A Pessoa de Deus

O Chamado à Intimidade com o Eterno

Descobrindo os Pilares da Fé Hebraica 

Alexandre D'Almeida

17 de dezembro de 2025


Que a luz do Eterno ilumine o seu caminho e abra o seu entendimento.

Prosseguimos em nossa jornada pelos fundamentos da fé hebraica, sob a ótica de Yeshua, o Messias. Como judeu e messiânico, também como moreh, minha missão é construir uma estrada onde o cristão descubra a profundidade das suas raízes e o judeu reconheça em Yeshua o Mashiach que nos aproxima do Pai. Após contemplarmos a Unidade e a Interação das Três Manifestações, hoje olhamos para o coração de Deus. Ele não é um "Motor Imóvel" aristotélico ou uma força cósmica fria; Ele é um Deus Pessoal. As Escrituras e a tradição dos nossos sábios revelam um Ser que pensa, sente, decide e, acima de tudo, anseia pela nossa comunhão.

1. Além da Força: O Deus que Possui "Coração"

Diferente do Deísmo — que imagina um Criador que "deu corda" no mundo e se retirou —, a fé bíblica apresenta um Deus que intervém e se importa. Em Números 23:19, aprendemos que Deus não é homem, mas isso não significa que Ele careça de personalidade. Pelo contrário, Ele é a fonte de toda a personalidade. O Midrash Bereshit Rabbah (27:1) ensina que a vontade e a sabedoria do Santo se manifestam para que possamos conhecê-Lo não como uma ideia, mas como Alguém.

No Éden, o grito de Deus: "Onde você está?" (Gênesis 3:9) não era um pedido de localização geográfica, mas um lamento pela ruptura de um vínculo. O Zohar (I, 23b) interpreta esse chamado como um convite eterno à Teshuvá (retorno), visando restaurar a conexão perdida. Como afirma o teólogo reformado Herman Bavinck, Deus Se revela como Pessoa para que possamos ter com Ele uma relação de aliança. O Pirkei Avot (3:14) resume: "Amado é o homem, pois foi criado à imagem de Deus; e maior amor ainda lhe foi mostrado ao ser informado disso".

2. A Tríade da Personalidade Divina

A teologia sistemática, de nomes como Lewis Chafer e Louis Berkhof, identifica três elementos que constituem uma "pessoa": intelecto, vontade e sensibilidade. No Eterno, esses traços são perfeitos:

  • Intelecto (A Mente de Deus): Deus possui pensamentos que transcendem os nossos (Isaías 55:8-9), mas que Ele escolhe compartilhar conosco. O Zohar (II, 100a) reflete que a mente divina é o oceano de onde emanam as gotas da nossa compreensão. Em Jeremias 29:11, vemos que Seus pensamentos são planos ativos de paz.
  • Vontade (O Poder de Escolha): Deus não age por necessidade, mas por soberana vontade (Efésios 1:11). Yeshua enfatiza que fazer a vontade do Pai é o que nos torna Sua família (Marcos 3:35). O Sifre Devarim 41 afirma que a vontade divina (Ratzon) é o fundamento que sustenta cada átomo da criação com um propósito específico.
  • Sensibilidade (O Pathos Divino): Deus sente. Ele se ira contra a injustiça (Êxodo 4:14) e se alegra com Seu povo como um noivo com a noiva (Isaías 62:5). O teólogo judeu Abraham Joshua Heschel chamava isso de "Pathos Divino": Deus não é impassível; Ele é afetado pelo que fazemos. O Midrash Tehillim (18:1) descreve Deus como um Pai que sente alegria profunda pelos passos dos Seus filhos.

3. As Ações de um Deus Pessoal: Trabalho e Providência

Um Deus pessoal é um Deus que age. João Calvino falava da "Providência" como o cuidado contínuo de Deus sobre Sua obra.

  • Trabalho: Deus terminou a criação, mas não parou de sustentar o mundo (Gênesis 2:1-3; João 5:17). O Zohar (I, 5a) ensina que o trabalho de Deus é a manutenção da harmonia contra o caos.
  • Comunicação: Deus fala "boca a boca" (Números 12:6-8), revelando Sua face progressivamente até chegar à revelação plena no Filho (Hebreus 1:1-2). O Talmud Bavli (Yoma 9b) afirma que a voz de Deus, embora silenciosa às vezes, guia o justo através da Bat Kol (voz do céu).
  • Julgamento: Como Pessoa Soberana, Ele avalia e julga com equidade (Romanos 14:10-12). O Talmud (Rosh Hashanah 16b) ensina que no julgamento divino, a Justiça e a Misericórdia se beijam, pesando não apenas o ato, mas a intenção do coração.

4. Antropomorfismos: A Linguagem do Amor

A Bíblia usa mãos, olhos e braços para descrever Deus. São os chamados antropomorfismos. Calvino explicava que Deus "balbucia" conosco, como uma babá fala com um bebê, adaptando Sua grandeza à nossa pequenez. O Zohar (III, 65a) diz que essas figuras são "espelhos" da Sua glória.

Quando lemos que Deus "se arrependeu" (Gênesis 6:6), não significa que Ele falhou em Sua presciência (Números 23:19), mas sim uma expressão do Seu profundo pesar emocional diante da maldade humana. O Midrash Tehillim (90:1) esclarece: Deus é constante em Seu caráter, mas dinâmico em Seu relacionamento. Ele usa a "linguagem dos filhos dos homens" para que possamos sentir Sua proximidade.

5. O Chamado à Comunhão (Devekut)

Toda a teologia da personalidade de Deus converge para um ponto: o relacionamento. Yeshua revela que o Pai procura adoradores que O adorem em espírito e em verdade (João 4:23-24). A redenção em João 3:16 é o esforço supremo de uma Pessoa (o Pai) entregando outra Pessoa (o Filho) para resgatar pessoas (nós).

No judaísmo, o ideal supremo é a Devekut — o "apegar-se" a Deus. O Zohar (II, 88b) afirma que o Santo anseia pela oração dos justos. Paulo corrobora isso ao dizer que aquele que se une ao Senhor é um só espírito com Ele (1 Coríntios 6:17).

Conclusão: O Deus que nos Busca

A existência de Deus é um fato; Sua personalidade é um convite. Ele nos criou à Sua imagem (Gênesis 1:26) para que pudéssemos responder ao Seu amor com nossa mente, vontade e emoções. Através dos antropomorfismos, Ele nos mostra que Sua mão está estendida e Seus olhos estão sobre nós.

Que possamos, como Esdras (Esdras 7:10), buscar não apenas saber sobre Deus, mas conhecer a Deus. Que nossa teologia nos leve à intimidade, transformando o estudo em oração e o conhecimento em comunhão. Como nos lembra o Pirkei Avot 2:5: "Não separe seu coração de Deus; viva para Ele". O Deus Pessoal está à porta e bate; que possamos abrir e cear com Ele.


Que o Eterno o Abençoe!




Alexandre D'Almeida

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