🌿 Série: Elohut — A Divindade do Messias - Cap. 4 - A Pluralidade de Manifestações — O Deus que se Revela

 


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Oliveira Viva

A Pluralidade de Manifestações

O Deus que se Revela

A Divindade do Messias 

Alexandre D'Almeida

4 de novembro de 2025


A Pluralidade de Manifestações — O Deus que se Revela

Quando falamos do Eterno, tendemos a imaginá-Lo como uma unidade estática, imutável e distante. Essa visão, embora reverente, empobrece a riqueza da revelação bíblica. As Escrituras nos apresentam um Deus vivo, que age, que se move e que Se manifesta de formas plurais para Se relacionar com a Sua criação. Como escreveu o profeta Isaías: "Na verdade, Tu és o Deus que Te ocultas, ó Deus de Israel, o Salvador" (Isaías 45:15). O ocultamento não é ausência, mas o prelúdio de uma revelação progressiva.


1. As Manifestações do Eterno: Entre a Guerra e a Sabedoria

Uma das passagens mais fascinantes da literatura rabínica encontra-se na Mechilta de Shimon Bar Yochai, um dos mais antigos midrashim sobre o Êxodo. Comentando a travessia do Mar Vermelho, os sábios perguntam: "Como o Eterno Se revelou naquele momento?" A resposta é surpreendente: como um "Homem de Guerra" (Êxodo 15:3). Não como um ancião sábio, mas como um guerreiro jovem, vestido para a batalha.


Mechilta de Shimon Bar Yochai, Êxodo 15:3: "O Eterno é um Homem de Guerra. Não como um ancião, mas como um jovem guerreiro, porque a guerra exige vigor e juventude. Assim Se revelou no Mar."

Porém, no Monte Sinai, a mesma tradição nos ensina que o Eterno Se manifestou de forma totalmente distinta. Ali, Ele apareceu como um Ancião de Dias, envolto em sabedoria e majestade, ensinando a Torá a Moisés. A Mechilta prossegue:


Mechilta de Shimon Bar Yochai, Êxodo 20:2: "No Sinai, Ele Se revelou como um ancião cheio de misericórdia, ensinando a Torá. Pois a sabedoria é própria dos dias avançados."

A pergunta que surge é inevitável: como pode o Mesmo Deus ser guerreiro e ancião? A resposta está na pluralidade de manifestações. O Eterno não está limitado a uma única forma de Se apresentar. Ele é uno em essência, mas múltiplo em expressão. Como ensina o Zohar (II, 43a): "O Santo, bendito seja, Se reveste de diferentes vestes conforme a necessidade do momento."

Para os reformados, isso ecoa a doutrina da acomodação divina — Deus Se revela em linguagem e formas que podemos compreender, sem jamais cessar de ser quem É. Calvino escreveu: "Deus balbucia conosco como uma ama balbucia com seu filho, para que possamos compreendê-Lo."


2. Os Dois Tronos de Daniel 7

Nenhuma passagem escatológica é tão poderosa para este tema quanto Daniel 7. O profeta relata uma visão celestial de tirar o fôlego:

"Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias Se assentou. [...] Eu estava olhando nas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-Se ao Ancião de Dias, e O fizeram chegar até Ele. E foi-Lhe dado o domínio, e a honra, e o reino." (Daniel 7:9, 13-14)

Aqui, temos dois tronos e duas figuras divinas: o Ancião de Dias e o Filho do Homem. A tradição judaica, longe de ignorar essa aparente dualidade, a enfrentou com profundidade teológica.

Rashi (1040-1105), em seu comentário a Daniel 7:13, escreve: "Este Filho do Homem é o Messias, nosso justo, que receberá o reino eterno." Ele não tenta harmonizar a passagem com um monoteísmo simplista. Para Rashi, o Filho do Homem é o Messias, e Ele é apresentado como uma figura celestial, recebendo domínio diretamente do Ancião de Dias.

Nachmanides (1194-1270), em seu comentário sobre a Torá (Gênesis 1:1), vai além e conecta essa visão com o conceito cabalístico das Sefirot. Ele sugere que o "Filho do Homem" corresponde à Shechinah — a presença imanente de Deus — e que essa manifestação não rompe a unidade, mas a completa.


Nachmanides, Comentário sobre Gênesis 1:1: "A Shechinah é a presença do Eterno que habita entre nós. Ela não é um deus separado, mas a manifestação visível do Deus invisível. Assim como o sol emite seus raios sem deixar de ser sol, assim o Eterno emana Sua glória sem deixar de ser Um."

Os sábios do Talmud também abordaram essa visão. No tratado Sanhedrin 98a, lemos: "O Rabino Alexandri disse: Rabi Yehoshua ben Levi levantou uma contradição: Está escrito: 'Eis que virá com as nuvens do céu como o Filho do Homem' (Daniel 7:13), e está escrito: 'Eis que o teu Rei vem a ti, justo e vitorioso, humilde e montado sobre um jumento' (Zacarias 9:9). Se forem dignos, virá com as nuvens; se não forem dignos, virá sobre um jumento."


Talmud, Sanhedrin 98a: A discussão sobre as duas vindas do Messias revela que os sábios reconheciam que o Messias possui duas naturezas ou duas manifestações: uma gloriosa e celestial, outra humilde e terrena. Essa dualidade não é contraditória, mas complementar.

Para a teologia reformada, essa visão de Daniel 7 aponta diretamente para Yeshua. O Filho do Homem é aquele que, tendo se humilhado até a morte de cruz, foi exaltado "acima de todo principado e potestade" (Efésios 1:21), assentando-Se à direita do trono da Majestade. Como lemos em Filipenses 2:9-11, Deus Lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Yeshua se dobre todo joelho.


3. A Unidade nas Múltiplas Presenças

É importante fazer uma distinção crucial: essa pluralidade de manifestações não significa pluralidade de deuses. A tradição judaica sempre combateu veementemente a shtei rashuyot ("dois poderes no céu"), uma heresia que surgiu no período do Segundo Templo e que sugeria a existência de duas divindades.

A resposta dos sábios a essa heresia foi o conceito de Knumot (do aramaico knumet — "essência" ou "presença"). Embora o termo seja mais desenvolvido na Cabalá, sua raiz está na literatura talmúdica. A ideia é que o Eterno, sendo infinito e incompreensível, pode manifestar diferentes presenças ou atributos sem jamais Se dividir.


Glossário — Knumot: Plural de *knumet* (aramaico: קנות). Literalmente, "essências" ou "presenças". Refere-se às diferentes manifestações do único Deus sem multiplicar Sua essência. É distinto de *hipóstase* (termo grego), mas possui função similar na teologia judaica: descrever como o Deus único age de formas múltiplas.

O Maharal de Praga (1520-1609), um dos maiores luminares do judaísmo, explicou esse mistério em sua obra Netivot Olam:


Maharal de Praga, Netivot Olam, Netiv HaAvodah: "A unidade do Eterno não é como a unidade de um objeto que pode ser contado. Sua unidade é absoluta e singular. No entanto, Ele opera no mundo através de diferentes atributos (*midot*). Esses atributos não são deuses separados, mas canais pelos quais a luz infinita alcança a criação finita."

Essa visão prepara perfeitamente o terreno para a compreensão da divindade de Yeshua. Quando o Messias Se manifesta na carne, Ele não está substituindo o Eterno nem dividindo Sua essência. Ele é a Knumet (presença) visível do Deus invisível. Como o apóstolo Paulo escreveu: "O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação" (Colossenses 1:15), e o escritor de Hebreus afirmou: "Ele é o resplendor da glória e a expressão exata do Seu Ser" (Hebreus 1:3).

Este é o mistério da pluralidade: a luz do sol não se divide quando ilumina a terra; ela continua sendo a mesma luz, apenas manifesta. Assim é o Eterno: uno em essência, múltiplo em manifestação.


4. O Messias Superior aos Anjos e Patriarcas

O Midrash Tanchuma (Toldot 1) nos oferece uma perspectiva impressionante sobre o Messias:


Midrash Tanchuma, Toldot 1: "O Santo, bendito seja, disse a Israel: 'Por que esperais? Não esperais pela redenção? Vede, o rei Messias virá, e ele será exaltado e elevado e sublime. Ele é mais elevado do que Abraão, mais exaltado do que Moisés e mais sublime do que os anjos ministradores.'"

Perceba a progressão: Abraão (patriarca), Moisés (profeta, legislador e o maior homem da história de Israel), e os anjos ministradores (seres celestiais). O Messias é apresentado como superior a todos. Isso não é uma simples honra; é uma declaração de sua natureza divina. Como poderia um mero homem ser mais sublime do que os anjos?

A resposta está na encarnação. Yeshua, sendo o Filho do Homem de Daniel 7, é também o Eterno que Se fez carne. Ele é o Ancião de Dias que Se tornou Homem de Guerra para nos redimir. Ele é o guerreiro que venceu a morte e o ancião que nos ensina a sabedoria do Reino.

O teólogo reformado Jonathan Edwards (1703-1758) escreveu:


Jonathan Edwards, "O Fim para o Qual Deus Criou o Mundo": "A manifestação do Filho de Deus em carne humana é a mais elevada e perfeita revelação da glória divina que o mundo já viu. Nela, a majestade do Eterno se une à humildade do servo, e a justiça infinita se encontra com a misericórdia sem limites."


Conclusão

A pluralidade de manifestações do Eterno não é uma contradição, mas uma revelação. O Deus do Mar Vermelho é o mesmo Deus do Sinai. O Ancião de Dias é o mesmo Filho do Homem. O guerreiro e o sábio são o mesmo Senhor.

Os sábios de Israel, ao longo de séculos, guardaram esses tesouros teológicos, mesmo sem reconhecer plenamente o Messias. Cabe a nós, que cremos em Yeshua, conectar esses fios dourados e mostrar que a pluralidade de manifestações prepara o caminho para a compreensão do Deus uno que Se revela em três presenças — Pai, Ruach, e Filho.

Que não temamos o mistério, pois ele é o altar onde a fé se encontra com a revelação. Como escreveu o rabino e teólogo reformado John Owen (1616-1683):


John Owen, "A Glória de Cristo": "Na face de Cristo, vemos toda a glória de Deus. Não há outra face que O revele. Se queremos conhecer o Ancião de Dias, olhemos para o Filho do Homem. Se queremos ouvir o Homem de Guerra, escutemos o Cordeiro que foi morto. Nele, toda manifestação se encontra e se consuma."

Que o Eterno o Abençoe!




Alexandre D'Almeida

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