🌿Série Idolatria Intelectual [2] – Não entender a Deus não é pecado. O Conceito de Persona na Trindade Segundo Tertuliano

 Imagem: Conselho na Idade Média em Debate. (D'Almeida)

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Oliveira Viva

 Não entender a Deus não é pecado.

O Conceito de Persona na Trindade Segundo Tertuliano

Idolatria Intelectual [2] Uma Análise Histórica e Teológica 

Alexandre D'Almeida

2 de outubro de 2025

Por que os cristão não são idólatras?

O termo persona, introduzido por Tertuliano (c. 160–c. 220 d.C.) em sua obra Contra Praxeas, marca um ponto de inflexão na formulação da doutrina cristã da Trindade. Escrito por volta de 213 d.C. em Cartago, este tratado foi o primeiro a articular a ideia de um Deus em três personae distintas — Pai, Filho e Espírito Santo — dentro de uma unidade de substância.

Tertuliano enfrentou o modalismo de Práxeas, que defendia que Pai, Filho e Espírito Santo eram meras "modalidades" ou manifestações do mesmo ser divino, rejeitando qualquer distinção real entre eles.

Este capítulo examina o significado original de persona em Contra Praxeas, explora se equivale a uma "pessoa humana" ou "ser" e avalia como teólogos ao longo dos séculos interpretaram e desenvolveram esse conceito, contrastando com a compreensão atual da Trindade.

O Texto Original e o Uso de Persona em Contra Praxeas

Tertuliano introduz o termo persona para descrever as distinções dentro da divindade, opondo-se à visão monarquiana de Práxeas, que identificava Pai e Filho como uma única pessoa. No capítulo 7 de Contra Praxeas, ele escreve:

"Pater et Filius et Spiritus Sanctus tres autem non statu sed gradu, non substantia sed forma, non potestate sed specie, unius autem substantiae et unius status et unius potestatis, quia unus Deus, ex quo et gradus isti et formae et species in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti dinoscuntur." (Contra Praxeas, 7)

Traduzindo: "O Pai, o Filho e o Espírito Santo, três, contudo, não em condição, mas em grau; não em substância, mas em forma; não em poder, mas em aspecto; ainda que de uma substância, uma condição e um poder, pois Ele é um Deus, de onde esses graus, formas e aspectos são reconhecidos sob o nome de Pai, Filho e Espírito Santo."

Mais adiante, no capítulo 9, Tertuliano reforça a distinção:

"Tres autem non numero sed ordine, nec divisione sed distinctione; unum enim est totum, quod ex uno omnia, per unitatem substantiae, dum tamen dispensatio illa servetur, quae unitatem in Trinitatem disponit." (Contra Praxeas, 9)

Tradução: "Três, contudo, não em número, mas em ordem; nem por divisão, mas por distinção; pois um é o todo, que de um tudo procede, pela unidade de substância, enquanto a dispensação que dispõe a unidade em Trindade é preservada."

Aqui, persona é usada para indicar uma distinção relacional dentro da unidade divina, não uma separação ontológica.

Tertuliano recorre a analogias como raiz, árvore e fruto, ou sol, raio e ápice do raio, para ilustrar uma derivação ordenada, mas não uma divisão de substância.

Para ele, persona refere-se a uma "forma" ou "aspecto" funcional dentro da economia divina, um papel ou relação, e não a uma entidade independente como um ser humano.

Prefiro não compactuar com qualquer tipo de de ilustração, pois, todas estarão erradas e limitantes. Portanto, não há comparação de nada criado com o Ser do Deus. Então me calo e me submeto, na minha incapacidade de compreender.

O Significado de Persona: Pessoa Humana, Ser ou Manifestação?

O termo persona no latim clássico originalmente significava "máscara" usada por atores teatrais, simbolizando um papel ou personagem.

Tertuliano adapta esse conceito para a teologia, sugerindo que Pai, Filho e Espírito Santo são "pessoas" no sentido de "relações pessoais distintas dentro da única essência divina" na obra da criação e redenção, mas não como entidades separadas ou seres independentes.

  • Diferente de Pessoa Humana: Diferentemente de uma pessoa humana, que é uma entidade individual com vontade e existência autônoma, a persona trinitária, para Tertuliano, não implica três deuses. Tertuliano apresenta uma ordem de origem (Pai → Filho → Espírito), não uma inferioridade de essência, embora ele não tenha desenvolvido a plena igualdade ontológica como os concílios posteriores fariam. Ele enfatiza a unidade de substância (substantia una), rejeitando a ideia de três seres separados. A persona Ã© uma distinção relacional, não uma individualidade autossuficiente.
  • Diferente de Manifestações Individuais: Contra o modalismo de Práxeas, que via Pai, Filho e Espírito como "modos" ou manifestações temporárias do mesmo ser (ex.: o Pai como criador, o Filho como encarnado), Tertuliano argumenta que as personae são eternas e distintas em suas relações. Por exemplo, no capítulo 5, ele cita João 14:28 ("O Pai é maior do que eu") para mostrar que o Filho tem uma posição subordinada, mas não é uma mera aparência do Pai.
  • Interpretação Inicial: Para Tertuliano, persona Ã© uma categoria funcional e econômica, ligada à "dispensação" (dispositio) divina. Ele não atribui às personae uma igualdade ontológica plena, sugerindo que o Filho e o Espírito são derivados do Pai, com uma hierarquia de graus (gradus).

Evolução das Interpretações Teológicas ao Longo do Tempo

A compreensão de persona evoluiu significativamente após Tertuliano, refletindo debates teológicos e conciliares:

Século IV – Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381):

O Concílio de Niceia afirmou que o Filho é “da mesma substância” (homoousios) que o Pai, rejeitando formulações anteriores que, embora bem-intencionadas, poderiam ser interpretadas como subordinacionistas — incluindo algumas expressões de Tertuliano. O Concílio de Constantinopla reafirmou a coeternidade e coigualdade do Espírito Santo, consolidando o conceito trinitário com três personae distintas, mas consubstanciais. Teólogos como Atanásio de Alexandria rejeitaram qualquer hierarquia ontológica, mas reconheceram a contribuição terminológica de Tertuliano.

Século V – Agostinho de Hipona:

Em De Trinitate, Agostinho reinterpretou o conceito de persona com uma abordagem mais filosófica e psicológica, usando a alma humana como analogia (memória, intelecto e vontade). Ele manteve a unidade de substância e afirmou a coigualdade das pessoas divinas, embora sua linguagem seja menos relacional do que a dos Padres Orientais. Sua ênfase estava na inseparabilidade das operações divinas (opera trinitatis ad extra sunt indivisa).

Idade Média – Escolástica:

Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, refinou a definição de persona como “subsistência relacional distinta” dentro da única essência divina. Ele explicou que as distinções entre as pessoas trinitárias se baseiam exclusivamente nas relações de origem (paternidade, filiação e processão), não em diferenças de natureza ou função. Isso marcou uma transição da linguagem econômica de Tertuliano para uma formulação metafísica precisa.

Reforma e Pós-Reforma:

Reformadores como João Calvino e Martinho Lutero mantiveram a doutrina trinitária conforme os credos históricos, mas enfatizaram mais a obra redentora de Cristo do que a terminologia técnica. As Confissões Reformadas continuaram a usar o termo persona, embora os teólogos preferissem destacar a unidade e eficácia da ação divina na salvação. Já críticos antitrinitários como Miguel Servet rejeitaram o conceito de persona como um acréscimo filosófico, propondo uma visão unitarista próxima ao monarquianismo.

Época Moderna – Teologia Contemporânea:

Teólogos modernos reexaminaram o conceito de persona Ã  luz da filosofia e das ciências humanas. Karl Rahner propôs a famosa “regra de Rahner” – de que “o Deus econômico é o Deus imanente” – e apresentou a Trindade como autocomunicação divina. Jürgen Moltmann, por sua vez, destacou as relações trinitárias como uma comunhão dinâmica e pericorética, afastando-se de modelos hierárquicos e propondo uma Trindade mais participativa e relacional

A Trindade Hoje: Compreensão Contemporânea

Na teologia cristã atual, a Trindade é geralmente compreendida como um mistério de uma única essência divina (ousia) subsistindo em três pessoas (hypostaseis ou personae), coeternas e coiguais, conforme formulado nos credos niceno-constantinopolitanos.

Diferentemente da formulação funcional e hierárquica de Tertuliano, a ênfase contemporânea recai sobre a reciprocidade e interpenetração das relações divinas (pericórese), onde Pai, Filho e Espírito Santo coexistem eternamente sem qualquer desigualdade ontológica.

Tradições Eclesiásticas:
As principais confissões cristãs adotam essa visão, ainda que com nuances distintas:

  • Catolicismo: O Catecismo da Igreja Católica (§§253–256) define as pessoas divinas como “relações subsistentes” dentro da única essência de Deus, rejeitando qualquer forma de subordinacionismo.

  • Ortodoxia Oriental: Destaca a singularidade do Pai como “fonte” (arché) da Trindade, sem comprometer a igualdade substancial entre as hipóstases.

  • Protestantismo: Variações internas ocorrem. A teologia reformada clássica preserva a terminologia trinitária tradicional, enquanto correntes evangélicas enfatizam mais o aspecto funcional, e o pentecostalismo tende a valorizar a experiência relacional com cada pessoa da Trindade.

Críticas Modernas:

Alguns teólogos liberais ou pós-modernos questionam a relevância contínua do conceito de persona, argumentando que ele deriva de categorias filosóficas extrabíblicas — como substância e relação — mais do que da linguagem revelacional das Escrituras. Em resposta, surgem propostas de uma Trindade “funcional” (centrada na economia da salvação) ou “relacional” (centrada na comunhão divina).


Diferentes Entendimentos e Reflexões Críticas

O conceito de persona permanece alvo de diferentes interpretações ao longo da história:

  • Linguagem Hierárquica de Tertuliano: Sua proposta apresentava um modelo de procedência (Pai > Filho > Espírito), refletindo uma estrutura funcional que seria superada pelas definições conciliares posteriores.

  • Ortodoxia Nicena: Afirmou a coeternidade e coigualdade das três pessoas, mantendo persona como uma distinção relacional, sem comprometer a unidade divina.

  • Modalismo e Antitrinitarismo: Práxeas e grupos modernos como os Unicistas negam distinções pessoais, vendo Pai, Filho e Espírito como manifestações temporárias do mesmo ser. Por outro lado, movimentos como as Testemunhas de Jeová rejeitam a Trindade, promovendo uma forma de subordinacionismo contemporâneo.

  • Perspectiva Filosófica: Tertuliano operava com categorias extraídas do estoicismo (como o conceito de logos) e do direito romano (como persona no sentido jurídico), indicando que o vocabulário trinitário foi moldado tanto por influências culturais quanto pela tentativa de fidelidade bíblica.

Essa diversidade revela a tensão permanente entre a unidade monoteísta de Deus e a pluralidade relacional da Trindade — uma tensão que Tertuliano foi um dos primeiros a formalizar, ainda que sem os recursos metafísicos desenvolvidos nos séculos seguintes.

Conclusão

A noção de persona, embora historicamente condicionada e filosoficamente influenciada, permanece uma ferramenta teológica útil para expressar a comunhão eterna entre Pai, Filho e Espírito Santo.

Mais do que uma definição técnica, ela aponta para o mistério da vida divina como relação e amor — um mistério que desafia as categorias humanas e continua a inspirar a fé cristã ao longo dos séculos.

O conceito de persona em Tertuliano, como apresentado em Contra Praxeas, foi uma tentativa pioneira de articular a Trindade contra o modalismo, definindo Pai, Filho e Espírito Santo como distinções relacionais dentro de uma única substância.

Diferente de uma pessoa humana ou de uma manifestação temporária, persona reflete um papel eterno na economia divina, com uma hierarquia que evoluiu para coigualdade nos credos posteriores.

A interpretação de persona transformou-se ao longo da história, de uma categoria funcional (Tertuliano) para uma relacional metafísica (Agostinho, Aquino) e uma comunhão dinâmica (Moltmann).

Hoje, a Trindade é tratada como um mistério relacional, mas as raízes de Tertuliano continuam a influenciar o diálogo teológico, desafiando-nos a equilibrar unidade e diversidade na compreensão de Deus.


Que o Eterno o Abençoe!




Alexandre D'Almeida

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