🌿Série Raízes Cristãs da Fé Judaicas: A Tradução Aramaica "Onkelos" Não é Literal?
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Oliveira Viva
A Tradução Aramaica "Onkelos" Não é Literal?
As Leituras dos Profetas
Alexandre D'Almeida
12 de setembro de 2025
Enquanto as raízes judaicas do cristianismo são amplamente reconhecidas, menos explorada é a influência inversa: como Yeshua (Jesus) e o Novo Testamento moldaram o Judaísmo rabínico.
Nos estudos anteriores, examinamos como as leituras proféticas (haftarah) e a Lei Oral foram impactadas pela presença do Novo Testamento.
Agora, nesta terceira parte, analisaremos a tradução aramaica da Torá, conhecida como Onkelos, usada até hoje no Judaísmo rabínico.
Com base nas pesquisas do estudioso israelense Gideon Statman, argumentaremos que Onkelos não é uma tradução literal, mas uma paráfrase que reflete a Lei Oral e responde tanto à Septuaginta grega quanto ao Novo Testamento, revelando novamente as raízes cristãs da fé judaica.
O Contexto das Traduções da Torá
A Torá, originalmente em hebraico, foi traduzida para o grego no século III a.C. por judeus de Alexandria, resultando na Septuaginta (LXX), uma versão considerada inspirada pelo Talmud (Meguilá 9a).
Séculos depois, no século II d.C., surge Onkelos, uma tradução aramaica atribuída a um convertido ao Judaísmo rabínico, discípulo de rabinos como Akiva.
Diferentemente da Septuaginta, que busca fidelidade literal ao texto hebraico, Onkelos incorpora interpretações da Lei Oral. Gideon Statman, um acadêmico religioso israelense, sugere que essa abordagem não foi acidental, mas uma reação estratégica às traduções anteriores e ao contexto histórico.
A Septuaginta e a Rejeição Rabínica
Segundo Statman, para entender Onkelos, é preciso voltar à Septuaginta. O Talmud relata que o rei Ptolomeu do Egito reuniu 72 sábios judeus, colocou-os em quartos separados e pediu que traduzissem a Torá.
Milagrosamente, todos produziram a mesma versão, e "o Santo, bendito seja Ele, colocou sabedoria em seus corações" (Meguilá 9a).
Esse endosso divino é reforçado por estudiosos modernos como Emmanuel Tov, que considera a Septuaginta mais precisa que traduções aramaicas posteriores. Contudo, os rabinos do século II d.C. a rejeitaram. Por quê?
Statman argumenta que a Septuaginta limitava a liberdade interpretativa dos sábios, pois sua tradução literal não refletia as tradições da Lei Oral.
Mais crucialmente, ela foi adotada pelos autores do Novo Testamento, escritos em grego no século I, que a usaram para demonstrar que Yeshua era o Messias.
Tornando-se um texto "cristão" aos olhos rabínicos, a Septuaginta exigiu uma alternativa que reforçasse a identidade rabínica.
Onkelos: Uma Paráfrase da Lei Oral
Statman demonstra que Onkelos não traduz a Torá palavra por palavra, mas a reinterpreta conforme a Lei Oral. Veja alguns exemplos:
- Gênesis 9:6 ("Quem derramar o sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado") torna-se em Onkelos: "Quem derramar o sangue do homem, por testemunhas, segundo a palavra dos juízes, seu sangue será derramado". Isso insere as leis noéticas, ausentes no texto hebraico, refletindo tradições rabínicas posteriores.
- Gênesis 12:5 ("As almas que haviam adquirido em Harã") vira "as almas que submeteram à Lei em Harã", sugerindo conversão ao Judaísmo — uma ideia ausente na Torá, mas comum na tradição rabínica.
- Gênesis 25:27 ("Jacó era homem simples, habitando em tendas") é traduzido como "Jacó era íntegro, servindo na casa de estudo", ou seja, uma yeshiva, um conceito anacrônico que projeta a Lei Oral sobre Jacó.
- Êxodo 23:19 ("Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe") torna-se "não comerás carne com leite", ampliando o texto para incluir a dieta rabínica de separação entre carne e laticínios.
- Levítico 19:34 ("O estrangeiro [ger] que reside entre vós será como o natural") vira "o prosélito que vive convosco", restringindo "estrangeiro" a "convertido", uma distinção rabínica inexistente no hebraico bíblico.
Esses exemplos mostram que Onkelos, longe de ser literal, é uma paráfrase que incorpora a Lei Oral, moldada pelos ensinos de mestres como Rabbi Akiva.
Uma Resposta ao Novo Testamento
O argumento mais audacioso de Statman é que Onkelos responde diretamente ao Novo Testamento.
Os discípulos de Yeshua, muitos dos quais falavam grego, usavam a Septuaginta para provar seu messianismo. Isso "cristianizou" a Septuaginta, levando os rabinos a criar uma tradução que alinhasse a Torá às suas tradições e refutasse interpretações messiânicas cristãs.
Um exemplo marcante é Deuteronômio 21:23: "Seu corpo não permanecerá no madeiro durante a noite... pois o pendurado é maldito por Deus".
A Septuaginta traduz literalmente "pendurado no madeiro", e Paulo, em Gálatas 3:13, aplica isso a Yeshua: "O Messias nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós". Já Onkelos diz: "Não deixe seu corpo na cruz... pois foi crucificado por pecar contra o Senhor". O uso de "cruz" (em aramaico, tselav) e a ênfase no pecado pessoal parecem uma réplica direta à visão de Paulo, negando que Yeshua morreu pelos pecados de outros.
Conclusão: As Raízes Cristãs em Onkelos
Statman conclui que Onkelos foi um instrumento para implementar a Lei Oral na vida judaica, substituindo a Septuaginta — endossada pelo Talmud, mas rejeitada por seu uso cristão.
Essa tradução, influenciada por Rashi séculos depois, reflete uma apologética contra interpretações do Novo Testamento.
Assim, Yeshua (Jesus) e o Novo Testamento não apenas moldaram o que é lido nas sinagogas e a redação da Lei Oral, mas também a própria tradução da Torá em aramaico.
Juntos, os estudos de Hanan Eshel, Daniel Kaneti e Gideon Statman sugerem que o Judaísmo rabínico foi, em parte, uma resposta ao Judaísmo messiânico.
Como José, rejeitado por seus irmãos, mas essencial à sua história, Yeshua permanece uma presença inescapável na fé judaica, aguardando reconhecimento.
Convido o leitor a explorar essas traduções e refletir sobre essa influência profunda.
Que o Eterno te Abençoe.
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