🌿Série O Messias de Isaías - Parte 2: O Sofrimento do Messias como Expiação - Uma Tradição Judaica?

  
Imagem: O Servo Sofredor de Isaías (D'Almeida)

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Oliveira Viva

O Sofrimento do Messias como Expiação - Uma Tradição Judaica?

Série O Messias de Isaías - Parte 2

Alexandre D'Almeida

27 de agosto de 2025

Antimissionários frequentemente rejeitam a ideia de que Yeshua (Jesus) seja o Messias, argumentando que sacrifícios humanos são proibidos no Judaísmo e que o conceito de um Messias sofredor, morrendo para expiar pecados, é estranho ao Tanakh. 

Contudo, textos judaicos do Segundo Templo até a Idade Média revelam que o sofrimento e a morte de um justo (tsadik), especialmente do Messias, como meio de kapará (expiação) eram parte integrante do pensamento judaico. 

Este capítulo explora essas tradições, desde os Manuscritos do Mar Morto até os escritos de Rav Saadia Gaon e Rav Moshe Chaim Luzzatto, demonstrando que a expiação pelo sofrimento do Messias tem raízes profundas no Judaísmo, alinhando-se à narrativa de Yeshua como o Tsadik supremo.

O Sangue e Outros Meios de Expiação

O Eterno estabeleceu diversos mecanismos de expiação no Tanakh, com o sangue como principal instrumento. Levítico 17:11 afirma: "A vida da carne está no sangue, e eu o dei a vocês sobre o altar para fazer expiação pelas suas almas". No entanto, a kapará — que implica cobrir, redimir e purificar pecados — não se limita ao sangue, como visto em exemplos como(Jacó com presentes, Moisés com oração). 

Ainda assim, o Talmud (Zevachim 6a) enfatiza que o sangue expia "em virtude da vida". Antimissionários usam isso para argumentar que apenas sangue animal, e não humano, é válido, mas tradições judaicas posteriores expandem essa visão, incluindo o sofrimento humano como expiatório.

O Justo Sofredor nos Manuscritos do Mar Morto

Os Manuscritos do Mar Morto, (provavelmente do século I ou II aC), refletem o pensamento judaico contemporâneo a Yeshua e revelam a expectativa de um Messias sofredor. Na Regra de Damasco (CD 14:19), lê-se: "Esta é a exata interpretação da norma até que surja o Messias de Arão e Israel; Ele expiará por seus pecados e será castigado".

Aqui, o Messias é punido por seis dias, servindo como expiação para Israel, ecoando o Servo Sofredor de Isaías 53. Já o texto profético 4Q431 proclama: "Quem foi desprezado como eu? Quem se compara a mim nos sofrimentos? Eu me assento nos céus, um companheiro dos santos, e ninguém pode se comparar à minha glória". 

Este sofredor, identificado como "o Eterno", mistura humanidade e divindade, um conceito reforçado pelo Midrash Rabbah (Gênesis 1:2), que interpreta o "Espírito de Elohim" como o Espírito do Messias — o próprio Eterno encarnado. 

Flávio Josefo, ao elogiar os essênios por raramente errarem profecias, corrobora a credibilidade dessas ideias.

A Morte do Justo na Tradição Rabínica

O Judaísmo do Segundo Templo e textos rabínicos posteriores consolidam a morte do justo como expiação:

  • Midrash Vayikra Rabbah 20:12: Relaciona a morte de Saul e Jônatas (2 Samuel 21:14) à aplacação da ira divina após uma fome causada por Saul. O Midrash conclui que a morte do justo Jônatas expiou os pecados de Israel, sugerindo que a morte do Messias teria efeito ainda maior.
  • Talmud Bavli, Berachot 62b: Em 2 Samuel 24, Davi provoca a ira divina com um censo, e 70 mil morrem numa praga. O Talmud explica que a morte de Avishai, "igual à maioria do Sinédrio", foi ordenada pelo Eterno para expiar o pecado, parando a destruição. Rashi e o Talmud Moed Katan 28a reforçam que a morte dos justos expia sua geração.

Se a morte de justos como Jônatas e Avishai redimiu Israel, a morte do Messias — o Tsadik perfeito — teria alcance incomparável.

O Messias como Redentor Universal

Rav Moshe Chaim Luzzatto (1707-1746), em Derech Hashem, eleva essa tradição ao afirmar que o sofrimento de um justo pode redimir não apenas sua geração, mas toda a criação desde os tempos remotos. Ele escreve: "O sofrimento pode ser imposto a um tsadik como redenção pela totalidade de sua geração... Ele aceita esse sofrimento com amor, beneficiando sua geração e salvando-a no mundo vindouro". Luzzatto destaca HaTsadik (O Justo) como um substituto que, por seu sacrifício, "lava" a criação, um paralelo com o Novo Testamento, onde o sangue do Cordeiro (Yeshua) purifica os pecados (Apocalipse 1:5).

Rav Saadia Gaon (892-942), em Kitab al-Tasabih, compara o Messias a "fogo do ourives" (Malaquias 3:2), que lava os pecados de Israel — graves ou leves — como um ato expiatório. Para Saadia, o Messias é o agente da purificação divina, um conceito que atravessa séculos de tradição judaica.

Respondendo aos Antimissionários

Os antimissionários argumentam que o sofrimento de Yeshua como expiação é uma invenção cristã. Contudo:

1.    O sofrimento do Messias é judaico: Os Manuscritos do Mar Morto, Midrashim e Talmud mostram que o Messias sofredor e a morte dos justos como kapará eram aceitos no Judaísmo.

2.    Não é sacrifício humano comum: Como o "Espírito do Eterno" (Midrash Rabbah), o Messias transcende a humanidade, sendo uma oferta divina voluntária, não um sacrifício proibido.

3.    Alcance universal: A expiação do Messias, segundo Luzzatto e outros, abrange todas as gerações e nações, superando os limites dos sacrifícios do Templo.

Conclusão: Yeshua como o Tsadik Sofredor

Desde os essênios até os rabinos medievais, o Judaísmo reconheceu que o sofrimento e a morte de um justo — especialmente do Messias — expiam pecados. 

Os Manuscritos do Mar Morto preveem um Messias castigado para redenção, enquanto Midrashim e Talmud atestam que justos como Jônatas e Avishai aplacaram a ira divina. Luzzatto e Saadia ampliam essa visão, vendo o Messias como purificador universal.

Yeshua, identificado como o "Espírito do Eterno" encarnado, encaixa-se nessa tradição: sua morte voluntária, aceita com amor, redime não apenas Israel, mas toda a criação.

Convidamos o leitor a explorar essas fontes e considerar como Yeshua pode ser o cumprimento dessa antiga esperança judaica, unindo sofrimento e glória em um ato eterno de kapará. 

Que o terno os abençoe!


Alexandre D'Almeida

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