🌿Série Deidade de Jesus (Yeshua): O Logos entre Fílon de Alexandria e o Evangelho de João: Entre a Filosofia Judaico-Helenística e a Teologia Encarnacional
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Oliveira Viva
O Logos entre Fílon de Alexandria e o Evangelho de João
Entre a Filosofia Judaico-Helenística e a Teologia Encarnacional
Alexandre D'Almeida
7 de agosto de 2025
1. Introdução
O conceito de Logos ocupa um lugar central no diálogo entre o pensamento judaico helenístico e a teologia cristã nascente. No período do Segundo Templo, o filósofo judeu Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.–50 d.C.) elaborou uma síntese singular entre a exegese bíblica e o platonismo médio, apresentando o Logos (λόγος) como o princípio mediador entre o Deus transcendente e o mundo criado. Poucas décadas depois, o Evangelho de João inicia sua narrativa com uma formulação semelhante: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus” (Jo 1:1).
A semelhança lexical, contudo, não implica identidade conceitual. O Logos de João, diferentemente do Logos de Fílon, não é um princípio cósmico impessoal, mas uma pessoa concreta que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1:14). A questão acadêmica, portanto, é compreender como o autor joanino ressignifica o conceito filosófico judaico-helenístico de Fílon, transformando-o em uma categoria teológica que une criação, revelação e encarnação.
2. O Logos em Fílon de Alexandria
Fílon concebe o Logos como a “imagem de Deus” (εἰκών τοῦ θεοῦ) e o “Filho Primogênito” (πρωτόγονος υἱός) do Criador (cf. De Confusione Linguarum 97; De Somniis 1.215). O Logos é o modelo arquetípico segundo o qual o cosmos foi formado (De Opificio Mundi 25) e o instrumento ativo através do qual o mundo continua sendo governado (Legum Allegoriae 1.43–45).
Sua função é tripla: (1) cosmológica, como princípio ordenador da criação; (2) antropológica, como paradigma da razão humana, reflexo do Logos divino; e (3) anagógica, como mediador místico que conduz a alma à contemplação de Deus.
Para expressar a transcendência absoluta do Altíssimo, Fílon recorre à linguagem de mediação: o Logos é o “sumo sacerdote do cosmos” (ἀρχιερεύς τοῦ κόσμου) e o “mensageiro” (ἄγγελος μέγας) entre o Criador e a criação (Quis Rerum Divinarum Heres Sit 205). Assim, o Logos funciona como uma hipóstase intermediária, não divina no sentido pleno, mas participante da divindade por representação.
3. O Logos nos Targumim
Enquanto Fílon expressa-se na linguagem da filosofia grega, os Targumim — paráfrases aramaicas da Torá — empregam um conceito semântico equivalente: a Memra (מֵימְרָא, “Palavra”). Nos Targumim, a Memra de YHWH atua como agente ativo da revelação, criação e salvação, evitando atribuir ações antropomórficas diretamente ao Nome divino.
Por exemplo, em Gênesis 1:27, o Targum Onkelos traduz: “E a Memra de YHWH criou o homem à sua semelhança”, onde o hebraico massorético usa Elohim. A Memra é também quem “fala” a Moisés (Êx 19:17, Tg. Onk.), “anda” diante do povo (Dt 1:30), e “salva Israel” (Os 1:7). Assim, a Memra é uma forma judaica de expressar a presença operante de Deus sem comprometer sua unicidade transcendente.
Há, portanto, uma convergência estrutural entre Memra e Logos: ambos são mediações entre o Deus inefável e o mundo manifesto. Contudo, os Targumim mantêm a Memra firmemente no domínio da linguagem cultual e teofânica, sem especulação metafísica.
4. O Logos em João 1:1–18
O prólogo de João abre com uma frase que ecoa tanto o Gênesis quanto o pensamento filoniano: “Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος” — “No princípio era o Logos”. A estrutura paralela a בְּרֵאשִׁית (“No princípio”) sugere uma intencionalidade dupla: João reinterpreta a criação de Gênesis à luz do Logos que preexistia “com Deus” (πρὸς τὸν θεόν) e que “era Deus” (θεὸς ἦν ὁ λόγος).
Contudo, a teologia joanina rompe com o paradigma de Fílon em três pontos fundamentais:
Personalização — O Logos não é mera ideia arquetípica, mas uma pessoa real que “se fez carne” (ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο).
Historização — A mediação cósmica se manifesta num evento histórico: a encarnação de Yeshua, o Messias.
Revelação plena — O Logos encarnado revela o Pai (“Quem me vê, vê o Pai”, Jo 14:9), superando a distância entre o Deus transcendente e o mundo.
Enquanto Fílon concebia um Logos que aproximava Deus do cosmos por analogia, João propõe um Logos que une Deus e humanidade ontologicamente. A transcendência não é abolida, mas assumida na imanência da carne.
5. Interpretação e Interação Filosófico-Teológica
A relação entre Fílon e João é melhor entendida não como dependência direta, mas como interação no mesmo horizonte cultural — o judaísmo helenístico do Mediterrâneo oriental. Ambos partilham um vocabulário e uma cosmologia teocêntrica, mas divergem na ontologia da mediação.
Harry A. Wolfson, em seu monumental Philo: Foundations of Religious Philosophy in Judaism, Christianity and Islam (1947), demonstra que o Logos filoniano é uma hipóstase conceitual, “a mente de Deus projetada no cosmos”. C. P. de Jonge observa que João apropria-se dessa categoria para “transferi-la do campo da metafísica ao da história da salvação”. Martin Hengel, em The Son of God (1976), nota que João faz do Logos o “cumprimento das expectativas judaicas de Sabedoria personificada” (cf. Pv 8; Sb 7–9).
Assim, o Logos de João não é simplesmente o “Fílon cristianizado”, mas a revelação definitiva do que os conceitos judaico-helenísticos apenas prefiguravam: o Verbo criador e redentor feito homem.
6. Conclusão
O Evangelho de João representa o ponto culminante da tradição judaica sobre a Palavra divina — desde a Memra dos Targumim até o Logos filosófico de Fílon. Nele, o mediador cósmico torna-se mediador encarnado. A ponte entre o transcendente e o imanente, entre o divino e o humano, já não é uma abstração metafísica, mas uma pessoa: Yeshua HaMashiach, a Palavra viva de Deus.
João, portanto, não heleniza o judaísmo, mas judaíza o helenismo — submete a filosofia à revelação. O Logos que era princípio da criação torna-se também princípio da nova criação, em quem “vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14).
Notas e Referências Selecionadas
Philo, De Opificio Mundi, §§25–36; Legum Allegoriae I, §§43–45; De Confusione Linguarum, §97.
Targum Onkelos, Bereshit 1:27; Shemot 19:17; Devarim 1:30.
Wolfson, Harry A. Philo: Foundations of Religious Philosophy in Judaism, Christianity and Islam. Cambridge: Harvard University Press, 1947.
de Jonge, C. P. Jesus: Stranger from Heaven and Son of God. Leiden: Brill, 2001.
Hengel, Martin. The Son of God: The Origin of Christology and the History of Jewish-Hellenistic Religion. Philadelphia: Fortress Press, 1976.
Cohen, Esther. La Palabra y el Verbo: Filo, Juan y la tradición sapiencial judía. Buenos Aires: Editorial Universitaria, 2008.
Justin Martyr, Dialogue with Trypho, chs. 61–63 (edição ANF).
Origen, Commentary on John, I.9–15.
Leituras Complementares
Harry Wolfson, Philo (2 vols.) — estudo clássico sobre a filosofia judaica helenística.
C. P. de Jonge, The Logos in the Fourth Gospel — sobre o desenvolvimento joanino da categoria.
Esther Cohen, La Palabra y el Verbo — foco na transição entre Memra e Logos.
Martin Hengel, Judaism and Hellenism — contexto histórico e intelectual do judaísmo alexandrino.
David Runia, Philo of Alexandria and the Timaeus of Plato — sobre as influências platônicas no pensamento de Fílon.
Craig Keener, The Gospel of John: A Commentary — excelente análise do contexto judaico e filosófico do Prólogo.
Que o Eterno o abençoe!
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